Desde a pré-história que o homem usa a arte como forma de comunicação não verbal. Das pinturas rupestres ao grafite os motivos e técnicas mudaram, mas os muros continuam sendo suporte para uma forte forma de expressão, que hoje conhecemos como arte urbana.

Grafite, arte urbana
Grafite – OsGemeos em Lisboa

Dentre as teorias existentes, a mais aceita é de que os desenhos nas cavernas, essencialmente imagens de animais como bisões e cavalos, eram feitas com o intuito “mágico” de garantir sucesso em atividades como a caça.

Anos depois foi a vez dos antigos romanos decorarem suas paredes com os famosos afrescos. E antes dos castos murais religiosos nas igrejas, houve uma série de nobres residências ornamentadas com variadas cenas de sexo! Na época o assunto não era nem de longe tabu. Algumas das obras podem ser vistas hoje em sítios arqueológicos como as ruínas de Pompéia.

É também da Itália que vem a origem da palavra grafite. Em italiano o termo graffito (no plural, graffiti) significa “rabisco”.

Origens modernas do grafite

O grafite como conhecemos hoje teve origem na Nova Iorque da década de 70, quando jovens da cultura hip-hop começaram a grafitar em vagões do metrô e nos muros das regiões mais pobres da cidade, como o Bronx. Além de forma de comunicação entre gangues, o grafite era também usado como uma maneira de protesto das minorias sobre os problemas sociais que enfrentavam.

No início as imagens eram essencialmente palavras ilegíveis (só compreendidas por aqueles do mesmo grupo) mas com o tempo a técnica e o estilo de cada um foram evoluindo.

E embora o grafite nunca tenha perdido seu caráter transgressor, alguns anos mais tarde começou a ganhar espaço e crédito no mundo artístico e comercial, com representantes como Keith Haring, artista que se tornou símbolo da geração underground nos Estados Unidos.

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New York city metro, ?? 1987

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Street Art pelo mundo

East Side Gallery
East Side Gallery, em Berlim

O muro de Berlim é um exemplo de como o grafite pode ser transformador. Um lugar que antes era símbolo de guerra e separação, hoje virou o East Side Gallery, uma grande galeria de arte a céu aberto e um dos pontos mais visitados e admirados da cidade! Os murais retratam tanto as dores da divisão das Alemanhas quanto questões políticas e sociais da atualidade.

Em Miami o Wynwood Walls transformou um pedacinho da cidade do consumismo em um oásis cool para os que curtem street art. Murais de artistas do mundo todo (inclusive brasileiros), galerias, bares e restaurantes moderninhos atraem turistas para um programa diferente.

Em Paris a arte de rua também é bastante valorizada. Existe um maravilhoso projeto chamado Le M.U.R onde uma vez por mês um artista diferente ocupa o espaço de um outdoor sobre um dos muros da cidade. O lugar fica em uma praça com um café e as pessoas são convidadas para assistir a obra sendo realizada ao vivo!

Tive a sorte de estar lá pra ver o trabalho do brasileiro Zezão, que é bastante conhecido por deixar sua marca azul e orgânica nos subterrâneos paulistanos.

Grafite de Zezão no Le Mur em Paris
Grafite de Zezão no Le Mur em Paris

O vídeo abaixo mostra um pouco da atmosfera do lugar durante performance do grafiteiro francês Bault.

Entre os nomes mais conhecidos na cena artística urbana está Bansky. O misterioso britânico não revela sua identidade, mas deixa sua marca ao redor do mundo usando principalmente a técnica do stencil e fazendo fortes críticas de forma irônica e inteligente aos problemas atuais da nossa sociedade.

Outros artistas que também ganharam as ruas são o francês Invader, conhecido por suas imagens 8-bit com referências ao mundo dos games e o italiano Blu, especialista em grandes e detalhados murais.

Grafite no Brasil

No Brasil o assunto ainda é bem controverso e a polêmica grafite x pixo é eterna. Mas temos hoje artistas de importância mundial como a dupla OsGemeos, os paulistanos Cranio, Kobra e Speto, a talentosa Nina Pandolfo (porque lugar de mulher também é grafitando na rua sim!) e tantos outros que estão ajudando a dar mais visibilidade para o grafite dentro do país.

Em São Paulo, berço da street art brasileira, a cultura do grafite é bem forte! Alguns dos melhores lugares pra quem curte esse tipo de arte são o Beco do Batman, na Vila Madalena e o recente Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU), que são na verdade as obras realizadas nas colunas da avenida Cruzeiro do Sul, em Santana. Além disso há os milhares de outros trabalhos espalhados pela cidade, das zonas nobres a periferia.

A Galeria Choque Cultural, em Pinheiros, também é um dos marcos da arte urbana na cidade. O espaço foi pensado por Baixo Ribeiro para dar visibilidade e valor a street art, expandido (mas não limitando) os horizontes dos artistas, das ruas para as galerias de arte.

Grafite: da marginalização aos museus

Em 2016, surgiu pela primeira vez no mundo um museu exclusivo das artes em grafite: o Art 42 – Museu de Arte Urbana, localizado em Paris. O local possui mais de 150 trabalhos artísticos em exposição e é um forte indicativo de como o Grafite passa a ser, agora, reconhecido como uma forma de arte.

E, não para por aí. Outro acontecimento que contribui para legitimar o grafite como arte ocorreu nos EUA, em fevereiro de 2018.

O reconhecimento do grafite como ferramenta de transformação social

O juiz Frederic Block ordenou que 6,7 milhões de dólares em indenização fossem pagos aos artistas que tiveram suas pinturas destruídas. Cerca de 49 grafites foram perdidos para que, no local, sejam construídas novas residências de luxo.

O proprietário permitiu que os artistas utilizassem os muros por décadas, mas demoliu, sem aviso prévio, grande parte da estrutura e pintou com tinta branca as obras restantes. Segundo o juiz, se o proprietário tivesse avisado aos artistas, parte dos grafites poderiam ter sido salvos. O ato foi considerado deliberadamente injusto.

Grafite como transformação social - 5pointz

Os locais grafitados eram considerados atração turística e atraíam muitos visitantes antes de serem derrubados. O bairro em questão, antes dominado pelo crime, se beneficiou das artes em grafite, que foram consideradas uma das maiores coleções de arte em spray do mundo, provocando melhorias consideráveis para a vida dos moradores.

Pode-se notar que a destruição das artes ocasionou não apenas prejuízos artísticos para os envolvidos, como também prejuízos de ordem social e todos eles foram levados em conta pelo juiz do caso ao decretar a sentença.

Conclui-se então que o grafite vive um momento notável em que seu valor é reconhecido não apenas como arte, mas como também uma manifestação legítima social de diversas tribos.

Quem dita o que é bonito e o que não é?

Beleza é um assunto discutido desde os tempos dos filósofos gregos e até hoje não há um consenso, nem no mundo das artes nem no mundo “real”. O belo é algo subjetivo, depende dos olhos de quem vê e de suas referências. E vale lembrar que o intuito das expressões urbanas não é só ter apelo estético, mas transmitir uma mensagem.

Grafite no Brasil
Tudo é bonito, mas nem todo mundo pode ver isso

No documentário Cidade Cinza, fica claro que a escolha de quais grafites serão apagados pela prefeitura nas ruas de São Paulo é feita única e exclusivamente de acordo com o gosto pessoal do funcionário do dia com a tinta cinza.

Existe uma proposta de institucionalizar o grafite, torná-lo “legal” em alguns lugares pré-determinados, mas segundo os próprios artistas essa ideia vai contra o caráter transgressor da arte de rua. Se existe uma premissa para o que pode ou não ser retratado e onde, perde-se a autenticidade e a liberdade de expressão.

A arte urbana é um assunto extenso e infinito. Todo dia cria-se algo novo, não só nas artes visuais como o grafite, mas também na música, dança, teatro, poesia… As pessoas estão cada dia mais se apropriando da cidade e a transformando!

E você, curte grafite? É artista? Tem alguma experiência pra dividir? Compartilha com a gente aqui nos comentários! 🙂

Se você gostou desse post, pode conferir vários outros conteúdos no meu blog pessoal, o Quero Ir Lá